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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Marselhesa africana


Sem dúvida essa foi uma das zebras mais satisfatórias que já assisti até hoje. É uma das poucas vezes que o futebol proporciona a sensação de ter sido feito a justiça no resultado.
Estou falando do jogo de abertura da Copa do Mundo de 2002 na Coréia do Sul e no Japão, realizado no dia 31 e maio daquele ano, em Seul. Só por ser um jogo de abertura, já deixa meio caminho andando para que algo de anormal aconteça. Quando se trata de um confronto entre africanos e europeus a chance aumenta muito. Naquele ano, os atuais campeões mundiais, os franceses, que vinham de quatro anos de domínio e arrogância, entrariam em campo para enfrentar o Senegal, seleção estreante em mundiais e completamente desconhecida até então.
Mais do que um confronto entre favoritos e estreantes era um confronto entre ex-metrópole e ex-colônia e, porque não, um confronto do mundo do futebol contra a arrogante seleção francesa. Como agravante, tinhamos o fato de a grande maioria dos atletas senegaleses atuavam no futebol francês e que o técnico Bruno Metsu, que treinava a seleção do Senegal, é francês e passava a maior parte do seu tempo no seu pais de origem.
Antes do mundial a população senegalesa já comemorava a participação no torneio, mesmo com a quase certeza de uma eliminação na primeira fase. Mas ninguém escondia que o maior objetivo era complicar a vida da França e surpreender o mundo. Entretanto a surpresa não era tão surpresa assim, pelo menos não no continente africano, pois o Senegal já vinha de uma boa campanha nas eliminatórias e de um vice campeonato africano, sendo que já e era respeitada por forças como Camarões e Nigéria. Aquele time foi montado quase que da noite para o dia, a partir do fim de 2000, por Metsu. Os jogadores não tinham a habilidade dos nigerianos, nem a força física de Camarões, mas alivam essas duas qualidades à velocidade e a uma disciplina tática que raramente aparece em seleções africanas.
E foi assim que o Senegal, um país de jogadores habilidosos, com uma estrutura quase amadora, péssimos gramados,clubes sem estrutura e sem divisões de base e onde o esporte depende de dinheiro do governo para se manter, chegou a sua estréia em mundiais.

Quando o jogo começou a história começou a ser escrita. O jogo foi bem movimentado, nem tanto por vontade dos fanceses, mas, sim, devido a velocidade que os senegaleses impuseram. A França, sem seu melhor jogador, Zidane, tentava tocar a bola e armas jogadas, mas sofria com a velocidade das investidas do time africano. Numa dessas investidas, Diouf arrancou pela ponta esquerda, foi a linha de fundo e cruzou para Bouba Dioup que dividiu com Petit e finalizou. Barthez defendeu na primeira, mas o rebote ficou com o próprio Bouba Dioup que, mesmo sentado, empurrou para o gol. A França, para evitar o vexame avançou, mesmo que desordenada, e conseguiu criar boas chances. Trezeguet mandou uma bola na trave ainda no primeiro tempo e Henry acertou o travessão no segundo tempo. Mesmo com boas chances a frança continuou jogando mal e mereceu mais levar o segundo gol do que empatar o jogo. O próprio Senegal acertou uma bola no trave de Barthez no segundo tempo, mas o placar não se alterou. O Senegal venceu por ter jogado com raça e vontade de quem estreava em uma Copa e queria mostrar a que veio.

Ao fim do jogo não eram apenas os atletas e comissão técnica do Senegal que comemorava. Boa parte do estádio e o restante do mundo futebolístico comemorava a queda dos atuais campeões frente a sua ex-colônia. A Copa do Mundo ganhava sua mais nova zebra. E uma zebra consistente. O time senegalês empataria suas duas partidas seguinte, contra a Dinamarca (1x1) e num jogaço contra o Uruguai(3x3). Dessa forma seguiu para a próxima fase surpreendendo a todos. Como se já não fosse suficiente, nas oitavas eliminou a forte seleção sueca (2x1), que havia derrubado Argentina e Nigéria na 1ª fase. Em sua estréia em Copas, o Senegal igualou a campanha de Camarões na Copa de 90 como as duas melhores campanhas de seleções africanas em mundiais. Pena que nas quartas de final foi derrotada por 1x0 pela seleção da Turquia, que terminaria em 3º lugar. Foi o auge de um time muito bom, que não teve o mesmo sucesso nos anos seguintes.
Já a França perdeu para a Dinamarca e empatou com o Uruguai, sendo vergonhosamente eliminada na primeira fase, sem ter marcado um gol sequer.
Nessa história, o único senegalês a sair triste foi o que se naturalizou francês, Patrick Vieira, um dos maiores volantes do futebol moderno, que trocou seu pais de origem pelo sucesso na seleção francesa. Quis o destino que a seleção de seu pais de origem impusesse uma das maiores decepções de sua carreira.

Fotos: languagecaster.com
bixentelizarazu.w.interia.pl
world-cup-info.com

FRANÇA 0 x 1 SENEGAL
França: Barthez; Tchuran, Le Boeuf, Desailly e Lizarazu; Vieira, Petit e Djorkaeff (Dugarry); Wiltord (Cisse), Trezeguet e Henry. Técnico: Roger Lemerre
Senegal: Sylva; Daf, Diatta, Cisse e Coly; Fadiga, Diao, , Bouba Dioup e N´Diaye; Papa Diouf e H. Diouf. Técnico: Bruno Metsu
Gol: Bouba Diop , aos 30 do 1º tempo.
Cartões amarelos: Petit e Cisse (França).
Estádio: Seoul World Cup Stadium, em Seul (COR).
Data: 31/05/2002.
Árbitro: Ali Bujsaim (EAU) Auxiliares: Ali Al Traifi (ARA) e Jorge Rattalino (ARG).
Público: 62.651 pagantes

Veja abaixo o vídeo da vitória senegalesa.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O milagre de Berna


Milagres não acontecem todos os dias no futebol. O dia 4 de Julho de 1954 foi uma exceção. Essa foi a data da decisão da Copa do Mundo daquele ano, que tinha tudo para coroar uma seleção mágica.
Aquele mundial teve uma série de particularidades. Foi a primeira transmitida pela televisão e foi realizada na Suíça pelo fato Fo país ter ficado neutro na II Guerra Mundial. Essa copa marcou também a estréia da uniforme amarelo da seleção brasileira e principalmente, a queda de uma seleção inesquecível.
A seleção húngara era fantástica. Possuía craques como Ferenc Puskás, Nándor Hidegkuti, József Zakariás, Sándor Kocsis, Zoltán Czibor, dentre outros. Chegou a final daquele mundial com uma invencibilidade de 32 partidas, quase 5 anos sem perder. Havia sido a primeira seleção não britânica a vencer a Inglaterra em Wembley, quando venceram por em 6X3, em 1953. Conquistou a medalha de ouro no torneio olímpico de Helsink, em 1952, vencendo suas cinco partidas (2x1 Romênia, 3x0 Itália, 7x1 Turquia, 6x0 Suécia e 2x0 Iuguslávia). Ganhou de todos e muitas vezes de goleada. O técnico húngaro Gusztav Sebes criou um sistema revolucionário, no qual os atacantes não tinham posição fixa, cuja base era o Honved, time do exército húngaro, onde brilhavam Ferenc Puskas e Sandor Kocsis.
Naquela Copa foi arrasadora. Na primeira faz goleou a Coréia do Sul por 9x 0 e a Alemanha Ocidental, 8 a 3. Nas quartas e semifinal eliminou os finalistas da última copa, respectivamente o Brasil e o Uruguai, ambos por 4x2; sendo que contra o Uruguai, a partida havia terminado 2x2 no tempo normal. Nada parecia barrar o título da máquina húngara. Curiosamente, em todos os seus jogos, os húngaros abriam dois gols de vantagem nos primeiros 15 minutos de partida, talvez por terem sido a primeira seleção a se aquecer antes das partidas.
Seu adversário na decisão, o selecionado da Alemanha Ocidental, chegou a final depois de vencer a Turquia (3x1), ser goleado pela Hungria (8x3), vencer o jogo desempate contra a Turquia (7x2) e vencer Iuguslávia (2x0) e Áustria (6x1). Na derrota por 8x3, na primeira fase, o técnico Sepp Herberger escalou seus reservas, para poupar titulares e estudar a equipe húngara, sem expor sua força máxima.
Na final, o Wankdorf Stadium, em Berna, recebeu 60.000 pessoas que se espremerem para acompanhar a partida final que coroaria a seleção da Hungria. Choveu muito no dia da partida e Adi Dassler, proprietário da Adidas e fornecedor de material esportivo para a seleção alemã, forneceu chuteiras com cravos intercambiáveis, que se adaptariam melhor ao campo molhado.

Ferenc Puskás jogou machucado, mas, mesmo sem estar no melhor da sua forma, abriu o placar aos 6 minutos de jogo. Logo depois, aos 8, Zoltán Czibor ampliou e deu a todos a certeza do título. Quer dizer, a todos menos os alemães, que logo aos 10 minutos diminuíram com Max Morlock. A partida estava eletrizante e Helmut Rahn empatou aos 19. Os primeiros 20 minutos da decisão foram espetaculares. No restante do primeito tempo, os alemães seguraram o ímpeto húngaro, levando o empate para os vestiários.

No segundo tempo a Hungria perdeu muitas chances e acabou sendo levada pelo nervosismo. Acostumada a resolver logo a partida acabou presa ao esquema dos alemães, que "cozinharam" o jogo. Tudo indicava que terminaria empatada a partida, mas a seis minutos do fim, Rahn, que chutou da meia-lua da área, após rebatida da zaga húngara virou a partida. Seria um milagre? O excrete húngaro, antes imbatível, estaria perdendo? Depois, que Puskás ainda teve um gol anulado no finalzinho, por estar impedido; a certeza do inacreditável se deu. A Hungria perdeu o título.
Esse resultado foi um baque para aquele time, que nunca mais foi o mesmo. Já a Alemanha Ocidental cresceu muito com aquele resultado. A imagem dos alemães recebendo a Taça Jules Rimet com a torcida cantando junto o hino nacional alemão, foi tão emblemática para o país no pós-guerra quanto seria a queda do Muro de Berlim. A partida é conhecida como o Milagre de Berna, tendo sido tema de um filme, em 2003, que redebeu o mesmo nome.
Para os húngaros, que tiveram uma média de 5,4 gols por jogo, marcando 27 gols em 5 jogos, aquela derrota foi o maior desastre do seu futebol.

Foto: esportes.terra.com.br
www.duplipensar.net
fifa.com

ALEMANHA OCIDENTAL 3 x 2 HUNGRIA
Alemanha Ocidental: Turek; Posipal e Kohlmeyer; Eckel, Liebrich e Mai; Rahn, Morlock, Ottmar Walter, Fritz Walter e Schafer. Técnico: Sepp Herberger.
Hungria: Grosics; Buzansky e Lantos; Bozsik, Lorant e Zakarias; Czibor, Kocsis, Hidegkuti, Puskas e Toth. Técnico: Gusztav Sebes.
Gols: Puskas, aos 6; Czibor, aos 8; Morlock, aos 10; e Rahn, aos 18 do 1º tempo; e Rahn, aos 39, do 2º tempo.
Estádio: Wankdorf Stadium, em Berna (SUI) Data: 04/07/1954.
Árbitro: William Ling (ING). Auxiliares: Vincenzo Orlandini (ITA) e Benjamin Mervyn Griffiths (GAL).
Público: 62.472 pagantes

Confiram os lances dessa decisão histórica:

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Tango com os leões



Camarões fazia apenas a sua segunda participação em Copas do Mundo, sendo que na anterior, na Espanha em 1982, o máximo que consegui fazer foi se envolver na polêmica de um possível jogo vendido para classificar a Itália, na primeira fase.
A comunidade futebolística internacional não esperava muito de um time que tinha como craque o jogador Roger Milla, de 38 anos.
Era a abertura da Copa do Mundo da Itália, e como de costume, a seleção atual campeã entrava em campo, cercada de favoritismo. Campeões em 1986, os argentinos liderados por Maradona e Caniggia esperavam desfilar na primeira partida. Maradona se sentia em casa, por jogar a copa no país em que atuava, pois era atacante do Nápoli, clube italiano.
Tendo início a partida, logo de cara, aos 2 minutos, a Argentina chega ao ataque para testar Tomas N´Kono, que viria ser o primeiro goleiro africano a ficar entre os melhores jogadores daquela temporada. A velocidade dos camaroneses surpreendeu os argentinos, ainda mais aos 10 minutos, quando Pumpido precisou salvar a finalização de Makanaky. O domínio argentino era evidente, mas os contra-ataques camaroneses sempre assustavam o goleiro Pumpido.
A torcida camaronesa fazia muita festa em San Siro vendo, no segundo tempo, as posições se inverterem. Camarões se lançou ao ataque de forma inconseqüente, sofrendo com os contragolpes argentinos. O juiz francês prejudicou Camarões ao expulsar Kanã Biyik, de forma injusta, quando Caniggia caiu sozinho numa das investidas de perigo da Argentina.

Isso não diminuiu o ímpeto camaronês, que continuou jogando da mesma forma até que as 22 minutos, Omam-Biyik ganhou de cabeça da zaga porteña, após uma cobrança de falta, e cabeceou fraco para o frango do goleiro Pumpido. A bola passou por baixo das mãos do arqueiro e deu iniciou a uma das maiores zebras da história das copas.
Para a surpresa geral Camarões continuou se lançando ao ataque, sem retranca ou futebol defensivo. A Argentina aproveitou-se disso para puxar os contra-ataques e levar perigo. Caniggia ainda tiraria mais um de campo, pois Massing e foi expulso após falta violenta no argentino. Mesmo em vantagem numérica, os argentinos não reverteram o placar e sofreram o inesperado revés na estréia.

A banca dos campeões do mundo não durou muito e quase se complicaram. Se classificaram em 3º lugar no grupo B, após empate contra a Romênia e vitória contra a União Soviética. Depois se recuperariam, venceriam o Brasil e iriam para a final.
Já Camarões assumiu o papel de zebra e avançou até as quartas de final, onde seriam eliminados na prorrogação pelos ingleses, graças a um futebol ofensivo e inconseqüente.
Mas graças a essa zebra, os “Leões indomáveis” cresceram, e Camarões se tornou uma das maiores forças do futebol africano e ganhando destaque internacional.

Fotos: blogdopepino.zip.net (San Siro)
www.zerozero.pt (comemoração do gol)
www.sorryperiferia.blogger.com.br (lance do gol)

ARGENTINA 0 x 1 CAMARÕES
Argentina: Pumpido, Simon, Ruggeri (Caniggia), Fabbri; Sensini (Calderón), Lorenzo, Batista, Burruchaga; Basualdo, Maradona, Balbo. Técnico: Carlos Billardo
Camarões: N´Kono, Ebwelle, Massing, Kunde e N´Dip; Tataw, M´Bouh, Kana-Biyik e Makanaky (Milla); M´Fede (Libiih) e Omam-Biyik. Técnico: Nepomnyashchiy
Gol: Omam Biyik, aos 22 do 2º tempo.
Cartões amarelos: Sensini (Argentina); Massing, N´Dip e M´Bouh (Camarões)
Cartões vermelhos: Kana Biyik e Massing (Camarões)
Estádio: Giuseppe Meazza (San Siro), em Milão (ITA)
Data: 08/06/1990.
Árbitro: Michel Vautrot (FRA) Auxiliares: Michal Listkiewicz (POL) e Vincent Mauro (EUA)
Público: 73.860 pagantes

Vejam o vídeo sobre aquela surpresa na abertura da copa de 90:

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Independência e a primeira grande zebra das copas

Monte uma seleção de jogadores da sua rua, se possível que nunca tenham jogado juntos e derrote a Seleção Brasileira. Difícil? Coisa semelhante foi feita há alguns anos no bairro do Horto, em BH.
Essa é reconhecida mundialmente como a primeira grande zebra da história das Copas do Mundo. A cidade de Belo Horizonte, mais precisamente o estádio Independência, foi palco de um jogo que tinha tudo para ser apenas uma mera formalidade, mas ganhou status de partida épica¹.
A poderosa seleção britânica fazia sua estréia em Copas do Mundo e surgia como a franca favorita a desbancar os anfitriões brasileiros. Até então, competindo como Reino Unido, se mantinha imbatível. Mesclava atletas ingleses e escoceses, sendo que nunca tinha perdido em Wembley, Londres, e no Hampden Park, Glasgow, as duas casas dos British Lions (leões britânicos, como eram conhecidos). Porém, nunca haviam disputado uma competição oficial com os profissionais, sendo que sua fama foi construída à base de amistosos.
A Copa de 1950 foi sua estréia no cenário mundial. Curiosamente, Escócia e Inglaterra disputaram as eliminatórias separadas, com a Inglaterra terminando em primeiro. Como ficaram em segundo os escoceses desistiram de competir, por achar sem sentido jogarem, já que a Inglaterra já representaria o Reino Unido. Mesmo sem jogadores da escócia, a Inglaterra havia vencido, antes de embarcar para a copa, um combinado europeu por 6x1.
O favoritismo se confirmou ao vencer o Chile na estréia por 2x0, no Maracanã. O próximo adversário seria a seleção dos Estados Unidos. Tratava-se de uma equipe amadora onde o único profissional era Ed McIleny. O treinador Bill Jeffrey, para formar um time e trazer ao Brasil com o único intuito de fazer parte de uma competição que “parecia” ser importante (os americanos mal tinham conhecimento do que vinha a ser a Copa do Mundo), convocou um lavador de pratos, um professor, um motorista de carro fúnebre e outros trabalhadores. Nos amistosos antes da Copa, perderam de nove para a Itália, de cinco para a Irlanda do Norte e de quatro para a Escócia. Sem dúvida era uma barbada.
Os ingleses, concentrados em Nova Lima, chegaram até a se preparam fazendo amistosos com o Vila Nova, clube local, mas devido ao bom resultado na primeira rodada, desprezaram os Estados Unidos e abusaram da indolência. Pouparam titulares para a partida e comemoraram dias antes a vitória.

Entretanto, no dia 29 de junho de 1950, no estádio Independência, o inexpressível time dos Estados Unidos entrou para a história do futebol mundial vencendo a Inglaterra por 1x0. Para o jornalista Plínio Barreto, colunista do jornal Estado de Minas, aquele “foi um grande acontecimento, uma zebra universal”. Mesmo com a total pressão da Inglaterra, o estádio todo torceu pelo time mais fraco e foi ao delírio quando, aos 38 do 1º tempo, no primeiro ataque dos americanos, seu único atleta negro, Joe Gaetjens subiu de cabeça e fez o gol histórico. Haitiano de nascimento, era um estudante de 26 anos, que de uma hora para outro virou herói, tendo saído ao fim da partida carregado pela multidão que invadiu o campo.
O mundo não acreditava nas notícias que chegavam do Brasil. Os jornais ingleses estampavam a manchete “Inglaterra10x1EUA”, por acharam que o resultado de 1x0 para os EUA, que chegou pelo telex, estaria com algum erro.


Gaetjens mostrou que no futebol tudo poderia acontecer. Depois da Copa, ele foi jogar na França pelo Racing Clube de Paris e pelo Troyes, mas em 1954 voltou para o Haiti, onde morreu durante a ditadura. Infelizmente, a repercussão do seu feito foi quase nenhuma. O autor do gol mais importante da história do futebol dos Estados Unidos sequer conseguiu se tornar um cidadão americano e teve seu nome escrito como sendo Larry em alguns jornais e livros britânicos. A única homenagem a seu nome foi em 1976, quando seu nome foi inscrito no Hall da Fama do futebol dos Estados Unidos.
Os EUA foram eliminados na primeira fase, pois perderam suas duas outras partidas por 3x1 para Espanha e 5x2 para o Chile, mas saíram do Brasil como campeões. Já a Inglaterra, com a moral abalada, perdeu para a Espanha por 1x0 e foram desclassificados ainda na primeira fase. Ao contrário dos americanos, voltaram para casa humilhados e tendo que engolir a sua tradicional arrogância.

¹A título de curiosidade, a história desse jogo foi retratada no filme de 2005, The Game of Their Lives , dirigido por Davis Anspaugh.

Fotos: www1.folha.uol.com.br(foto de Gaetjens)
marcionlinehoje.blogspot.com (lance do gol)


EUA 1 x 0 INGLATERRA
Eua: Borghi, Pariani e Edward Souza; John Souza,Ed McIlvenny e Colombo; Joe Gaetjens, Keough, Wallace, Bahr e John Maca. Técnico: Bill Jeffrey .
Inglaterra: Burt Williams, Mannion e Finney; Billy Wright, Ramsey e Aston; Mortensen, Hughes, Dickinson, Bentley e Mullen. Técnico: Walter Winterbottom.
Gols: Gaetjens aos 38min do 1º Tempo.
Estádio: Independência, em Belo Horizonte (MG) Data: 29/06/1950.
Árbitro: Generoso Dattilo (ITA). Auxiliares: Charles De La Salle (FRA) e Giovanni Galeatti (ITA).
Público: 10.000 pagantes

Veja abaixo, o trailler do filme de 2005, que conta a história dessa partida:

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Os cavalos alados assombram o mundo

O ditador Kim Jong-il era um jovem de 24 anos e, provavelmente ainda nem cometia das suas sandices, quando um grupo de jogadores pioneiros colocava a Ásia no mapa do futebol mundial.
Era a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, e a Coréia do Norte se tornou a primeira seleção do continente asiático a disputar o mundial. Nas eliminatórias para aquela copa eram tão escassos os time que precisaram enfrentar apenas a Austrália e venceram as duas partidas, por 6x1 e 3x1.

O time apelidado de Chollimas (cavalos alados), chegou ao mundial completamente desconhecido e por se tratar de um país sem expressão nenhuma no futebol, onde o esporte era totalmente amador, era tido como saco de pancadas. E isso se concretizou nas duas primeiras rodadas, quando foram derrotados pela União Soviética por 3x0 e empataram com o fraco Chile, por 1x1.
Na última rodada, enfrentariam os bi-campeões italianos, que haviam vencido por 2x0 o Chile e perdido de 1x0 para os soviéticos. Era uma barbada a vitória italiana.
No início da partida a Coréia do Norte aplicou uma correria desenfreada ao jogo deixando a sólida defesa italiana meio perdida em campo. O que parecia impossível aconteceu, quando Pak Doo-ik marcou, aos 42 minutos do primeiro tempo, o gol que entrou para a história do futebol. Dai em diante foi um jogo franco onde o norte-coreanos suportaram as investidas italianas e com velocidade levavam perigo ao seu adversário.
Final de jogo e surpresa geral, seguida de aplausos enfusivos ao coreanos que inacreditavelmente venceram a Itália e se classificaram.
Nas quartas de final, quase apronaram denovo. No jogo contra Portugal, qua havia eliminado o Brasil, chegaram a abrir 3x0 assustando a todos, mas cansaram, devido ao seu ritmo alucinante, e levaram a virada. Perderam de 5x3 com direito a show de Eusébio.
Mas aquele já tinha feito história e assombrado o mundo de maneira positiva, feito que lhes rendeu até um documentário, chamado "O jogo de suas vidas" (The game of their lives), de autoria de Daniel Gordon e produzido por Nicholas Bonner, que foi lançado em 2002.
Eles estarão de volta em 2010. Espero que o seu ditador não ordene um ataque nuclear se o time não fizer uma campanha tão boa quanto aquela.

CORÉIA DO NORTE 1 x 0 ITÁLIA
Coréia do Norte: Chan Lee Myung, Yung-Kyoo Shin e Zoong-Sun Lim; Pak Doo-Ik, Bong-Zin Han, Yoon-Kyung Oh e Won Yong-Ha; Seung-Hwi Im, Pak Seung-Zin, Seung-Kook Yang e Bong-Hwan Kim. Técnico: Rye-Hyun Myung
Itália: Albertosi, Facchetti e Janich; Fogli, Guarneri, Landini, Mazzola e Rivera; Barison, Bulgarelli e Perani. Técnico: Edmondo Fabbri
Gols: Pak Doo Ik, aos 42 do 1º tempo.
Estádio: Ayresome Park, em Middlesbrough (ING)
Data: 19/07/1966.
Árbitro: Pierre Schwinte (FRA). Auxiliares: John Adair Linesmen (IRL. do NORTE) e Jack Taylor (ING).
Público: 18.727 pagantes

Foto: futebolhistoria.blogspot.com

Abaixo o trecho do documentário sobre essa partida:

O Maracanazo


Essa sem dúvida é a zebra mais famosa de todos os tempos. Geração em geração ela segue atormentando os brasileiros e entrou para os anais do futebol como o jogo mais surpreendente de todos os tempos. Estamos falando sa surpreendente vitória do Uruguai por 2x1 contra o Brasil na decisão da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã.
A seleção Brasileira chegava àquela decisão como a franca favorita após uma campanha fantástica e um futebol exuberante. Na primeira fase, o Brasil venceu o México (4x0), empatou com a Suiça (2x2) e venceu a Iuguslávia (2x0). No quadrangular final (por incrível que pareça a Copa já foi decidida num quadrangular), duas vitórias sensacionais sobre Suécia (7x1) e Espanha (6x1), colocaram o escrete canarinho como virtual campeão. O Uruguai não punha medo em ninguém e só seria campeão se vencesse o Brasil, que jogava por um simples empate.
O time que contava com craques como Ademir, Jair da Rosa Pinto, Zizinho e outros, encantou a torcida e a imprensa, que já aclamacam o Brasil como campeão dias antes da final. O Brasil deu show e o Uruguai havia encontrado muita dificuldade nos jogos contra Espanha e Suécia, contra quem empatou e conseguiu uma vitória magra, respectivamente.
Na manhã de 16 de julho de 1950 as ruas do Rio de Janeiro estavam empolvorosas. Um carnaval improvisado foi organizado, com milhares de sinais celebrando o título mundial, e cantos de "O Brasil precisa vencer!". Este espírito encorajador não cessou, até o início da partida final, que lotou o legendário Estádio do Maracanã com um público de aproximadamente 200.000 pessoas, um recorde para partidas de futebol mantido até hoje.
¹
A euforia brasileira não contaminou os uruguaios que foram pra campo determinados a vencer.
A partida começou e o Brasil bombardeou o gol uruguaio, enfrentando, porém, uma defesa bem postada. O 0x0 do primeiro tempo diminuiu a euforia da torcida. Logo a 2 minutos do segundo tempo, Friaça abriu o placar para o Brasil, provocando a explosão da torcida no Maracanã. O óbvio finalmente acontecia. O capitão uruguaio Obdúlio Varela, alegou impedimento no lance e levou a bola ao centro de campo e motivou o time a tentar a vitória.

O time acordou e conseguiu boas jogadas ofensivas e surpreendeu o estádio aos 21 minutos com o gol de Schiaffino. O resultado ainda dava o título ao Brasil. Aos 34 minutos o estádio se calou e um trauma se gerou num país inteiro. Ghiggia avançou pela direita e bateu cruzado. O bom goleiro Barbosa aceitou. O juiz George Reader, da Inglaterra, apitar o fim do jogo e o início do calvário de Barbosa, que passou a ser culpado por muitos pela derrota.
O próprio presidente da FIFA, o francês Jules Rimet, não acreditou no que viu. Ele havia preparado um discurso em português para parabenizar os jogadores brasileiros.
Haviam 22 medalhas de ouro com o nome dos jogadores, preparadas pela Federação Brasileira, que também nunca foram usadas.

O Brasil mostrou ser um time de forte poder ofensivo, mas com falhas na defesa. E elas foram culpadas pela sua derrota, assim como o "oba-oba" pré-jogo.
A camisa branca de gola azul foi aposentada pelo Brasil, por ser tida como de má sorte. O Uruguai nunca mais ganhou um título internacional.
Em 2014, a copa terá novamente o Maracanã como palco da decisao. Tomará que os uruguaios nem se classifiquem, pois os fantasmas sempre voltam para assombrar aqueles que deles tem medo.

BRASIL 1 x 2 URUGUAI
Brasil: Barbosa, Augusto e Juvenal, Bauer, Danilo Alvim e Bigode; Friaça, Zizinho e Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto e Chico. Técnico: Flávio Costa.
Uruguai: Máspoli, González e Tejera, Varella, Gambetta e Andrade; Ghiggia, Perez, Miguez, Schiaffino e Morán. Técnico: Ivan Lopez.
Gols: Friaça, aos 2, Schiaffino, aos 21, e Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo.
Estádio: Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ) Data: 16/07/1950.
Árbitro: George Reader (ING). Auxiliares: Arthur Ellis (ING) e George Mitchell (ESC).
Público: 173.850 pagantes (público extra-oficial de 205.000)



¹Trecho retirado de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Maracana%C3%A7o

Assista a esse vídeo, com entrevistas e as imagens do jogo: